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Poema - Papai

26 Feb, 2019

Ser pai não é pra quem quer

É pra quem pode ser pai
É pra quem tem fibra
Tem coragem de enfrentar a vida.

Ser pai é suportar com paciência
O longo período da espera do filho.
É aceitar a interferência de uma terceira pessoa
No relacionamento à dois.
As transformações físicas da esposa
As crises nervosas
A dependência excessiva...
Ser pai é deixar se moldar
Pelas necessidades do momento.

É estar ao lado da família
Mesmo na hora do desemprego, da necessidade
É não a abandonar
Quando se tem uma grande oportunidade.
O verdadeiro pai, mesmo sendo rico
Aparenta pobre para enriquecer os filhos.

Aí sim, o senhor soube ser pai!
Quantas vezes trabalhou de sol à sol para nos sustentar
E enquanto o suor corria pelo seu rosto queimado
O senhor pensava em nós
Pensava em mamãe
Olhava para o céu
E rogava a ajuda de Deus.
E enquanto o sol se escondia no horizonte
Dando o seu adeus derradeiro
Com os bracinhos abertos e o coração saltitante
Corríamos ao seu encontro
E assentados ao seu colo sujo
Beijávamos o seu rosto salgado.
"Papai, o senhor é o melhor pai do mundo!
Estávamos todos felizes e alimentados!"

Sabe papai
Eu não era capaz de avaliar
O quanto custara aquele caderno
Ou aquele par de sapatos
Que o senhor me comprara sorrindo.
Tudo parecia tão fácil!

Papai, naquele dia que o carrinho de picolé passou
E o velhinho provocante gritou:
"Ó o picolé! Picoleseiro!
Porque o senhor virou as costas?
Estava despercebido ou não tinha dinheiro?

Só hoje entendo o seu descuido proposital
Só hoje escuto a voz do teu silêncio...
Eu queria ter sido grande o suficiente
Pra ver que seus olhos estavam vermelhos
Eu queria ter sentido o nó que o senhor sentiu na garganta
Enquanto engolia em seco para não chorar.
Seu bolso estava vazio
Mas seu coração orgulhoso de homem
Recusava admitir que não tinha dinheiro
Nem pra comprar um picolé!

Só agora eu sei
que o senhor leu a frase nos meus olhinhos pidões
Frase que naqueles tempos difíceis, de crise,
O senhor me proibira de falar:
"Papai, me dá, eu quero, eu quero um picolé!
Ele está tão docinho... Tão geladinho...!
O filho da vizinha comprou, papai!
Pode me dar um
Eu te dou um pedacinho!
Roxinho, roxinho...
Ele é de uva, papai!"

Só hoje que sou grande é que eu entendo
Que seu coração amoroso de pai
Estava mais roxo do que o picolé!
Só hoje posso ouvir
O grito que não saiu do seu peito:
Um dia hei de vencer..!

E foi trabalhando longe de casa
Que um dia o senhor venceu.
Lembra, papai, daquela lanchonete?
O senhor parou naquele seu carro velho
E nos convidou a descer.
Comi, bebi até não ter mais jeito:
Vitamina picolé, guaraná...
Tudo o que tinha direito!
E o senhor pagou tudo sorrindo!

Papai, mesmo que o seu grande sonho
Nunca tivesse sido realizado
Eu continuaria o amando
E dizendo: "Muito obrigada!"
Pelo seu sacrifício
Pela sua renúncia
Pelo orgulho que tenho de hoje poder dizer:
"PAPAI!"