Blog

Poema - Amor de migalhas

26 Feb, 2019

Não sou feminista 

Não sou advogada
Não sou promotora
Não sou revolucionária.
Sou apenas uma realista sensível...
Sensível o suficiente pra sentir revolta
Ao ver a injustiça da injusta justiça
Dos direitos furtados de uma mãe.
Humilhação...
Perda de tempo...
"Matei serviço."
"Fui demitida."
"Vagabunda!"
"Filho de prostituta não tem pai."
E depois de tanta baixaria
Um DNA demorado
Em um país que não dá motivo pra confiar
Na autenticidade do resultado.
Aquele homem que fora terno, carinhoso...
E até parecia sincero
Agora é um estranho, frio, calculista e cruel.
A dúvida bate no peito
E atravessa o coração desiludido...
Será que fui amada ou apenas usada...?
Talvez, um mero objeto de prazer sexual...
É, fui mais uma vítima que o egoísmo fez...
Simplesmente mais uma que aceitou acreditar
Mesmo conhecendo a irresponsabilidade de um ficar.
Você me ofereceu o mundo
E eu não posso dizer que não me deu
Pois essa carinha linda e inocente
Que nasceu do nosso relacionamento
Me é mais cara do que tudo na vida!
Mas ele é vivo!
Tem fome e precisa de alimento...
Às vezes doente e precisa de remédio...
Ele estuda e precisa de material escolar.
"Papai, na sua casa você tem tudo...
Seus outros filhos têm iogurte, maçã, brinquedos, passeio...
Eles têm você...
E pra mim, o que sobrou?
É mesmo papai, o que sobrou?
Todos os meses
Minha mãe tem que entrar na justiça
Pra receber uma pequena esmola
Tirada do seu salário...
E você prefere ir para a cadeia de vez em quando
À me dar alguns trocados.
Minha mãe trabalha o dia todo
Às vezes até lavando roupas
Pra completar sua "mesada".
Senhor reprodutor
A dona da loja me contou
Um caso absurdo e chocante.
Era o meu primeiro dia de aula
E você foi comprar meu material escolar
Mas queria uma nota fiscal
Três vezes maior que a compra
Pra apresentar ao juiz.
Isso é baixo, é nojento
É indecente, é desonesto!
Me faz sentir vergonha
Do meu próprio progenitor!
Mas mesmo assim
Continuo dependendo de você.
Corro atrás
Mendigo sua ajuda
Mendigo até o seu amor!
E você me taxa interesseiro
Diz que eu quero apenas dinheiro...
Dinheiro? Ah!
Isso seria o mínimo
Que você poderia me dar
Pra amenizar a perda
A falta que você me faz!
Papai, permita-me assim chamá-lo.
Meu coleguinha de escola chegou.
Adivinhe com quem?
Com um homem lhe segurando a mão.
Na despedida eu vi
Quando aquele homem
Colocou a mão no bolso daquela calça surrada
E tirou o último centavo.
O menino pegou o dinheiro e resmungou...
Ele achou pouco!
Eu vi frustração no rosto daquele pai
Por não ter mais para dar.
O menino entrou na escola despreocupado...
Ele sabia que no outro dia
Tudo se repetiria.
O que era normal para ele
Para mim era apenas uma miragem...
Uma utopia!
O juiz que pagou minha mãe
O seu dinheiro chorado
Não me beijou!
A máquina de onde minha mãe saca
O seu pequeno depósito
Após vários extratos frustrados
Não me sorriu!
Não vai voltar amanhã
Se é que o amanhã existe...
Por que você não me acaricia
Não me assume em público
Não deixa seu coração me amar?
O que não vai custar nada pra você
Pra mim vai fazer tanta diferença!
Quem sabe as pessoas que o tiram de mim
Essas sim!
Talvez sejam insaciáveis e egoístas!
Quem sabe estão a sugá-lo
Só pra não sobrar pra mim?
Sabe papai
Esse modo em que você me trata agora
Poderá até isentá-lo de responsabilidades
De escândalos, brigas e cobranças
Mas nunca do final de todos os mortais.
Papai, hoje estou em suas mãos
Sou dependente, sou carente...
Hoje preciso de você...
Amanhã, quando a velhice chegar
E lhe pegar de surpresa
Espero que meu coração amargurado
Sentido e distante
Consiga pelo menos sentir piedade
Do homem que lhe trouxe à vida
E assim, com pelo menos essa gratidão
Eu consiga afagá-lo em meus braços...
Se um dia cansado, doente, dependente
Você cair em minhas mãos...!"